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Metodisto : John Wesley

segunda-feira, 25/05/2009 1:45 pm  

O ano era 1743. Um grande grupo de mineiros, provenientes das áreas carentes de Cornwall, região norte da Inglaterra, cercava uma casa. O interessante é que eram 3h da madrugada. A razão de estarem naquele lugar era a seguinte: o homem que ali dormia havia prometido que às 5h realizaria um culto, onde pregaria a respeito da graça de Deus. Temerosos em perder a hora, os mineiros e suas famílias chegaram antes e começaram a entoar hinos de louvor a Deus. John Wesley levantou-se e pregou-lhes sobre o texto de Atos 16:31. O título da mensagem era “Crede no Senhor Jesus Cristo, e sereis salvos”.

O episódio está registrado no diário pessoal de John Wesley, o grande pregador do século 18, a quem é creditada a formação do movimento e, posteriormente, da Igreja Metodista. Ele nasceu no dia 17 de junho de 1703. “Um homem completamente apaixonado pelo Senhor Jesus”, declara o bispo Paulo Lockman, presidente do Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas da América Latina e Caribe.

Um tição arrebatado do fogo

Em 1709, quando tinha apenas seis anos, John Wesley teve uma experiência que levou sua mãe Suzana Wesley a acreditar que sua vida seria poderosamente usada por Deus. A casa  de Epworth, onde ele também nasceu, foi tomada por um incêndio que a destruiu completamente. Na ocasião, o pai – Samuel Wesley – auxiliado por uma empregada, retirou as crianças de seus quartos. Suzana, por três vezes, tentou entrar novamente na casa para ver se todos os filhos haviam sido salvos.

Na hora da revista, um golpe, o pequeno John não estava lá, mas dormia em meio ao fogo. Quando todos se ajoelharam do lado de fora para encomendar a alma do menino a Deus, ele apareceu em uma das janelas, acenando. Um dos vizinhos subiu nos ombros do outro e conseguiu salvar-lhe a vida. Deste momento em diante, sua mãe entendeu que havia um propósito muito especial na vida de seu filho.

A experiência marcou a vida de John Wesley. Em 1755, acometido de uma grave tuberculose e pronto para receber a morte, ele escreveu o seu próprio epitáfio: “Aqui jaz o corpo de John Wesley, tição arrebatado do fogo: morreu de tuberculose aos 51 anos de idade, sem deixar, ao morrer, depois de pagas as sua contas, nem dez libras; sua oração era: Deus, tem misericórdia de mim, servo inútil”. A mensagem teve que esperar até o dia 3 de março de 1791, quando Wesley realmente faleceu.

Os metodistas

Alguns biógrafos defendem que, se John Wesley foi o pai do Metodismo, Suzana certamente foi a mãe. Citada por inúmeras vezes no diário de Wesley e nas biografias mais prestigiadas do pregador, ela dedicou sua vida piedosa na criação dos filhos. De família puritana, casou-se com Samuel, um pastor anglicano que tinha no ministério a sua grande realização pessoal.

John Wesley foi criado de uma forma simples e, devido aos bons relacionamentos que seu pai, como pastor, cultivava, foi admitido na Charterhouse School, em Londres, no ano de 1714. Seis anos mais tarde, ele ingressou no Christ Church College, um dos melhores estabelecimentos de cultura superior entre todos os internatos que formavam a Universidade de Oxford.

Em 1725 foi ordenado diácono, o que na Igreja Anglicana – a religião oficial da Inglaterra – é a primeira das ordens sagradas a ser concedida. Foi nesta época que recebeu de sua mãe uma carta, respondendo aos questionamentos do filho sobre que carreira seguir. Suzana não lhe mandou ser pastor, apenas orientou-lhe a ter certeza da salvação, o que lhe seria o mais importante em toda a sua caminhada. As palavras de sua mãe iniciaram a maior de todas as crises: como ter a certeza da salvação?

Em 1726, recebeu o grau de Mestre em Artes (ou Humanidades) e, no ano seguinte, foi ser pastor auxiliar de seu pai em Epworth. Em 1729, no entanto, voltava a Oxford, onde permaneceria por mais seis anos em um período desfrutado ao lado de seu irmão Charles e de outros companheiros com quem desenvolvia uma vida piedosa. Seus sermões eram cheios de conhecimento, mas não disfarçavam a ausência de uma experiência de conversão.

Os dois irmãos se juntaram a homens muito fervorosos, como George Whitefield. Juntos, eles formavam uma espécie de sociedade, na qual se comprometiam a orar, jejuar, comungar e zelar pela vida ministerial uns dos outros. Nessa época, foram chamados pela primeira vez de metodistas, pois desenvolveram, de acordo com seus observadores, um método para atingir a santidade.

O coração aquecido

Movido pelo desejo de ter uma experiência real, Wesley embarcou para a Geórgia, nos Estados Unidos, em 1735 a fim de trabalhar como missionário. Acreditava que, de tanto pregar, se converteria. As experiências, no entanto, não corresponderam as suas expectativas, apesar de ter sido muito bem recebido e ter realizado um bom trabalho. Ele voltou a Londres dois anos depois.

No dia 24 de maio de 1738 aconteceu o que os metodistas de todo o mundo comemoram até hoje como o Dia do Coração Aquecido. O episódio marca o encontro com Deus, tão esperado por Wesley. Ele comparou sua experiência à do apóstolo Paulo, que – como ele – não tinha encontrado Deus em sua vida religiosa. “Resolvi”, disse ele, em seu diário dias antes, “buscar incansavelmente essa graça, renunciando por completo toda a confiança, total ou parcial, em minhas próprias obras ou em minha própria justiça que foi (ai de mim!) até então o único alicerce das minhas esperanças, e a dedicar-se a pedir com orações incessantes a fé que justifica; esse abandono completo de mim mesmo na virtude expiratória do sangue de Cristo derramado por mim; essa confiança nele como meu Cristo, minha justificação, minha santificação, minha redenção”.

O próprio Wesley vai dizer que sua experiência de conversão teve uma relação direta com a aproximação dos morávios, uma sociedade alemã, que herdara da Reforma empreendida por Lutero o desejo de cultivar a graça em lugar dos ritos. Influenciado por eles, Wesley começou a pregar nas igrejas não mais aqueles sermões acadêmicos e cheios de forma como antes. Mas de um jeito fervoroso. Até suas orações, que obedeciam a uma coerência teológica tornaram-se clamores apaixonantes.

O homem de multidões

Não demorou muito, entretanto, para que os clérigos da Igreja Anglicana se levantassem contra as mudanças de Wesley. Os convites para pregação diminuíram até não ocorrerem mais, e aqueles que já estavam agendados começaram a ser cancelados. O mesmo acontecia com seu irmão, que também fora impactado por uma experiência semelhante.

Nessa época, reencontraram Whitefield, que iniciara um ministério de pregações nas praças. Tendo começado um trabalho na cidade de Bristol, conhecida pelas fábricas, Whitefield convidou John Wesley a assumir os mineiros que haviam se convertido e não encontravam nas igrejas tradicionais um local receptivo para desenvolverem sua fé.

Em 1739 começava o movimento das pregações nas ruas pelas principais cidades do país. É importante lembrar que, nesta época, a Inglaterra vivia um período de decadência moral e, obviamente, espiritual. De cada dez construções, seis eram tabernas, as quais serviam homens que, embebedados com álcool, viviam largados pelas sarjetas. A corrupção das autoridades, a exploração dos mais pobres e a degeneração dos sacerdotes, compunham o quadro daquela geração. A estas pessoas pregava John Wesley, chamando-as ao arrependimento. Nos cultos, muitos eram tomados por gemidos e choros. Pessoas caíam e se apavoravam diante da condição de pecado em que se descobriam. As celebrações avivadas presididas por Wesley são consideradas as grandes precursoras dos movimentos pentecostais do início do século 20.

As conversões aconteciam em grande quantidade, nos cultos. O público, que poderia variar de 2 mil a 10 mil pessoas, ouvia atentamente e sedento às mensagens. Logo, houve a necessidade de organizar as chamadas sociedades metodistas. Assim como o apóstolo Paulo, Wesley desenvolveu um sistema de visitas e acompanhamento pastoral, que não permitia aos novos convertidos desgarrar-se da fé. Ele também construiu escolas para os filhos dos mineiros e abriu espaço para o chamado “Ministério Leigo”. Na falta de pastores anglicanos que aceitassem o desafio de discipular tanta gente, foi necessário que aqueles sem formação acadêmica, apenas espiritual, assumissem a liderança dos pequenos grupos. Todos foram divididos em “células”.

O alto preço

Tantas foram as conquistas que, em 1744, aconteceu a primeira Conferência Metodista. Durante uma semana, os principais líderes do movimento se reuniram não para redigir documentos e organizar hierarquias. O propósito do encontro era trabalhar a visão de Deus para aquele ministério e uma forma cada vez mais eficaz de atender aos membros que não paravam de chegar.

Alto foi o preço pago pelos irmãos Wesley por levarem adiante um movimento que começou a ameaçar a posição da Igreja Anglicana. Prisões, açoites, calúnias, injúrias, destruição dos templos, perseguição por onde fossem, foram alguns dos desafios que os primeiros metodistas tiveram que enfrentar.

Mas não apenas isso. John Wesley enfrentou inúmeras privações também em sua vida pessoal. Depois de três decepções sentimentais (duas em sua juventude e uma depois dos 40 anos), ele resolveu se casar com Marie Vazeille, uma jovem viúva de posses, em 1750. Apaixonada pelo pregador, ela comprometeu-se a ajudá-lo em seu ministério. Todavia, o ciúme doentio que nutria pelo marido levou o casamento a um triste fim.

Sozinho, ele continuou seu ministério. Acredita-se que, até sua morte, em 1791, Wesley pregou, em média, mais de 800 vezes por ano.

A pequena sociedade iniciada em Oxford não chegava a dez pessoas. Mas, hoje, os metodistas somam mais de 76 milhões de pessoas em todo o mundo e estão presentes em 130 países. É bom lembrar que esta obra não começou com alguém que tivesse uma habilidade ou dom especial, alguém que realizasse grandes prodígios, mas através de um homem, cuja única ambição era se converter.


Enviado por: Carlos Barth

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  • Alessandra

    Não tinha idéia de tudo isso, que lindo! Parece tão fácil e admirável lendo, mas viver isso na carne de ve ser muito difícil. Dói ver que temos tantas facilidades, tanta liberdade no Brasil, e tão poucos preocupados com os que dormem, com os que se matam todos os dias… isso é uma vergonha pra mim como cristã. Mas ler isso foi um estímulo!

    Obrigada, Erko!